
Não menos aparenta o personagem central da narrativa, o qual é o próprio Cristovão Tezza, revivendo os momentos que antecedem o nascimento de seu primogênito Felipe e reminiscências dos tempos de juventude: a viagem pela Europa como mochileiro, a passagem pela marinha, o tempo em que viveu em uma comunidade alternativa e as leituras que influenciaram sua forma de escrever. Contudo o mais empolgante são as cenas das dificuldades de criar Felipe. Desde a confirmação da doença, quando ainda bebê até as noções distorcidas de tempo, típicas de quem é vítima desse distúrbio genético. O que mais choca no início é a torcida (velada para os outros) do pai pela morte do filho, pois crianças com essa síndrome possuem o coração frágil, o qual os leva ao óbito cedo. Outras passagens chocantes são apresentadas quando o pai alega que o filho não será alguém de verdade, um dependente por toda vida, um golpe na autossuficiência pregada pelo personagem.
Tanto orgulho com pitadas generosas de arrogância levam Tezza a escrever sobre sua própria história de vida, mas sem se referir à primeira pessoa. Com categoria, o narrador não é o autor. Não é uma obra autobiográfica, caso o leitor não saiba que Cristovão Tezza viajou como mochileiro por Portugal e Alemanha; que tornou-se doutor em Letras e que reside em Curitiba, lecionando até pouco tempo na UFPR. É um romance, cuja definição, para mim não interessa, mas que é uma leitura hipnotizante, pois não se imagina o desfecho, contudo não é uma leitura piegas com bordões de autoajuda. São relatos de vida sem didática moralista ou sentimententalismo exagerado. Os mais românticos podem até considerá-lo frio, porém o narrador é realista ao apresentar os pensamentos do pai em relação ao seu eterno filho. Uma maneira de isentar Tezza da "culpa" de ter sentimentos e constatações tão cruéis em relação ao rebento vitimado pelo excesso de cromossomo 21 ("Síndrome de Down ou Tricossomia 21 é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21 extra total ou parcialmente", segundo a Wikipédia, enciclopédia digital dos práticos e preguiçosos, hehe).
Não sei dizer se é um romance autobiográfico ou se uma autobiografia ficcionada (como alguém definiu), apenas li um ótimo livro e me vi no personagem, não como leitor de grandes gênios da literatura ou desejoso de ser escritor (nem sei se levo jeito prá coisa, escrevo por lazer), no entanto, como um sujeito meio "perdido no mundo", dadas algumas convicções que não agradam a maioria, sem contar minhas fugas a convenções sociais as quais prendem a outros de maneira desconfortável. Por exemplo, nossa (minha e de minha esposa) opção por não termos filhos tão cedo. É mais do que uma opção é uma necessidade, pois uma nova vida requer muitos cuidados e sacrifícios, além do mais perderemos nosso "status" de eternos filhos. Afinal, como já escreveu Edgard Scandurra, do Ira: "Se meu filho nem nasceu / Eu ainda sou o filho / Se hoje canto essa canção / O que cantarei depois?" Caso arrume tempo para cantar com tanto para se preocupar (rimou, eca!).
"Força Sempre!"

